
[collaborative project with Paulo Kellerman]
A dialogue between photography and literature.


Caminha na minha direcção, mas não
me vê; agita a mão, mexe os dedos como
se tentasse agarrar o ar. Apesar do seu
comportamento peculiar, a expressão é
pacífica, a postura é tranquila.
Pergunto: Tentas pegar o ar com a mão?
Sorri. Responde: Não, tento agarrar o
amor.
Passa por mim e afasta-se, conduzido
pelo seu sorriso; e assim desapareço da
sua vida. Nem memória serei.
Vejo como se afasta, vejo como
desaparece; e enquanto vejo, pergunto:
será que já não existe amor em mim?
***
She walks in my direction, but does not see me; she agitates her hand, moves her fingers as if trying to grab the air. In spite of her peculiar behaviour, her expression is pacific, her posture is calm.
I ask: Are you trying to catch the air with your hand?
She smiles. And answers me back: No, I am trying to grab love.
She passes by and walks away, lead by her smile; and then I disappear from her life. I will not be even a memory.
I see how she walks away, I see how she disappears; and as I watch her, I ask myself: Is there no longer love in me?
photographs by Ana Gilbert
text by Paulo Kellerman
[in Geografias Corporais, Alter Edições, 2022]
Não sei bem como começou. Há muito que os dias estão sem contornos. Só sei das horas em que consigo fumar e esquecer de mim. Porque não há nada na minha vida antes da rua de que valha a pena lembrar; porque não sou sequer uma pessoa. Sinto que vou perdendo pedaços pelas ruas por onde vagueio; eles aderem às escadas calçadas bancos onde me encosto. Ficam os buracos na carne. Por eles, vaza a podridão da minha existência. Estou condenado a este presente sem horizonte. Durmo e acordo neste agora, que me engole com a voracidade traiçoeira de um pântano. Debato-me e não saio do lugar. Não há onde possa segurar, alguém que me possa amparar. Apenas este sabor a morte, este cheiro acre que me devolve a presença do mundo, este mundo feito de mijo, vômito e merda. Afundo.
Por vezes, penso que poderia ser um sonho ruim. E que acordaria sobressaltado e ofegante ao som de um despertador qualquer, numa cama feita de branco. Ao meu lado, alguém pousaria a mão sobre a minha pele assustada e diria que está tudo bem. Talvez um dia aconteça, se eu quiser muito. Mas não sei como é querer, desejar algo, ser desejado. Não consigo imaginar, imaginar-me, perceber o que sustenta os meus fragmentos. Sei apenas da exaltação anestesiante que o fumo me traz; da consciência aguda dos movimentos do corpo. E da vontade de foder, não importa com quem. Por instantes, a necessidade insaciável do corpo, o pau intumescido a penetrar em outro corpo, tão sem contornos quanto o meu, basta para apagar dos meus olhos o desejo de ver a beleza que não faz parte de mim. Depois da explosão do gozo sem prazer, é o afastar dos corpos suados, a respiração agitada, a pele sem registros, o vazio. Não sei quando foi a última vez que comi. O ódio aplaca a fome. Revirar as lixeiras exaure. Ou é esta existência informe que cansa; o olhar de nojo das pessoas que passam por mim e viram a cara para que a minha imagem não lhes invada os sonhos. Cansa esta realidade partida, feita de planos sobrepostos não comunicantes, com seus enredos e encenações; películas elásticas que se deformam ao toque e engolem a voz.
Não sei bem como começou. Uma angústia envolta em fogo e dor. Ele estava ali, deitado na praça, e me incomodou desde o primeiro momento em que o vi. Tem algo que não tenho e quero e preciso. Uma altivez, um ar de interesse, uma fagulha de vida. Quis conversar comigo. Insistente. Falava de algo, não me lembro o quê, talvez sobre passados e famílias. Resmunguei qualquer coisa e tentei sair fora; sentei no meu canto feito de papelão e fechei os olhos. Tinha acabado de fumar e senti o ódio crescer no peito e nas mãos. O corpo a se agitar. Pensei que poderia deixar de estar ali, desaparecer, sair caminhando pelas ruas, encontrar um cachorro e despejar nele o meu desespero. Mas a voz, irritante irritante irritante, continuou.
– Para, chega – levanto-me, parto para cima dele, desprevenido e entregue, olhos assustados, meus dedos selvagens agarram os cabelos, já não distingo dedo e fio, começo a golpear a sua cabeça contra o piso da calçada, não sinto nada, não vejo os seus esgares de dor, não escuto os seus murmúrios, recuso a sua humanidade, desprezível como a minha, vejo o sangue da vida entreaberta a escorrer na calçada, ganho força e sei naquele minuto que ele deve morrer, o ritmo das batidas é constante, confunde-se com as pancadas do meu coração, somos um nesta dança frenética e mortal, escuto um estalar de ossos e o prazer de imaginar a face deformada aumenta-me o tamanho, sinto-me um gigante invencível, sou violência e ocupo um espaço neste mundo feito de praça e sangue, sou corpo e existo fora do pântano, sou ritmo e o tempo volta a passar [explosão]
(in A respiração do tempo, Minimalista, 2022)

Sentes o perfume das rosas da alma nua, nua em suas imponentes asas?

UM LUGAR DE PASSAGEM, projeto com Frankie Boy (2024), agora em formato digital.
uma câmera
um rolo de filme
dois fotógrafos
Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
Ana Gilbert fotografou Frankie Boy
[edição bilíngue]
…
A PLACE OF PASSAGE, a project with Frankie Boy (2024), now in digital format.
a camera
a roll of film
two photographers
Frankie Boy photographed Ana Gilbert
Ana Gilbert photographed Frankie Boy
[bilingual edition]

Perseguia sonhos na bainha do silêncio.

memória é o que se vê com os olhos da imaginação.
[no dia em que fui mais feliz]

Humanity: the ability to put ourselves in someone else’s shoes. If we choose not to do so, we are not human. We are something else, but not human. Something else. Something.

Searching for meaning in life is like asking a mountain to explain what a kiss is.
Texts | Paulo Kellerman
Photos | Ana Gilbert
PORTABLE LINK , a dialogue between photography and literature

Dia caindo em horas mornas; a saudade, provocante, desenha tempo com luz, aproximando-se em intervalos sussurrados:
– Contas-me os teus segredos?
…..
The day falling into lukewarm hours; longing, provocative, drawing time with light, approaching at whispered intervals:
– Will you tell me your secrets?
Text(o) | Cristina Vicente
in LATITUDES, 2025
Ana Gilbert & Cristina Vicente



Aisha tem muitas vidas. Aisha permanece.
“Pai, achas que amanhã já há futuro?”
[do livro com Paulo Kellerman]

o medo que nos separa

Saiu no Jornal de Leiria,.. Palavra de honra
Obrigada, Ricardo Graça e Jornal de Leiria
[texto completo aqui]


com Paulo Kellerman | Portable link
Almas Desligadas (2018 | 2019)
Geografias Corporais (2022)
And when the questions are over? REIMAGINED (2024)
Aisha (2025)


a impossibilidade de narrar o que se vê.
[isto também é sobre Gaza]









uma câmera
um rolo de filme
dois fotógrafos
Frankie Boy fotografou Ana Gilbert
Ana Gilbert fotografou Frankie Boy
escreveram com luz
com palavras
fragmentos de tempo
atravessamentos de histórias
encontro
***
a camera
a roll of film
two photographers
Frankie Boy photographed Ana Gilbert
Ana Gilbert photographed Frankie Boy
they wrote with light
with words
fragments of time
interweaving of stories
encounter


o que fazer com as linhas de fuga deleuzianas quando não há fuga possível?
[isto também é sobre Gaza]