O meu nome

Diz o meu nome
pronuncia-o
como se as sílabas te queimassem os lábios
sopra-o com a suavidade
de uma confidência
para que o escuro apeteça
para que se desatem os teus cabelos
para que aconteça

Mia Couto [poemas escolhidos]

Carrousel

Carousel

Limitamo-nos a desejar, estamos sempre prisioneiros de um desejo qualquer; e, por vezes, até vamos atrás dele, perseguimo-lo perseverantemente; mas chegamos lá e não é nada daquilo, encontramos apenas uma decepção. Ou até é aquilo que queríamos, que procurávamos; mas, no fundo, é irrelevante. Porque começamos logo a desejar outra coisa qualquer.

***

We limit ourselves to desire; we are always held captive by one desire or another; and sometimes we even go after it, pursuing it relentlessly; but when we reach it , it is nothing like what we imagined, we find only disappointment. Or perhaps it is precisely what we wanted, what we were looking for; yet, deep down, it proves to be irrelevant. Because almost immediately we begin to desire something else.

Paulo Kellerman

Portable link

Na noturna claridade
me esqueci
que nunca havias nascido.

Mia Couto [poemas escolhidos]

FOTOGRAFAR PALAVRAS # 5452

Hoje, na publicação # 5452 do FOTOGRAFAR PALAVRAS, a parceria no texto é com a Fabiana Fraga.

A sombra falava baixo.
Ela escutava.

Entre escolher e decidir,
silenciosa.

O tempo, não.

The shadow spoke softly.
She listened.

Between choosing and deciding,
silent.

Time did not.

Texto | Text: Fabiana Fraga
Fotografia | Photography: Ana Gilbert

Fotografar palavras, espaço de encontro entre imagem e palavra, entre pessoas. Projeto coletivo imaginado e coordenado pelo querido Paulo Kellerman. Sustentado por tod@s nós.
Publicações diárias, desde 2016.

Desencontro (1)

Não ter morada
habitar
como um beijo
entre os lábios
fingir-se ausente
e suspirar
(o meu corpo
não se reconhece na espera)
percorrer com um só gesto
o teu corpo
e beber toda a ternura
para refazer
o rosto em que desapareces
o abraço em que desobedeces

Mia Couto [poemas escolhidos]

A tosquia do peixe

Rede social: onde o peixe é capturado sem perceber que está a ser capturado porque sempre achou que pertencer a um cardume o protegia. Glu glu glu. O peixe devia aprender com a ovelha: fazer parte do rebanho é apenas uma garantia de que será tosquiada; várias vezes. Méééé. 

Shearing the Fish

Social network: where the fish is caught without realizing it is being caught, because it always believed that belonging to a school would protect it. Glu glu glu. The fish should learn from the sheep: being part of the flock is merely a guarantee that it will be shorn — repeatedly. Baaaa.

Paulo Kellerman