o último voo

Experimento abrir as asas, lentamente. A esquerda, em especial, a mais machucada das duas. Estico-a com cuidado, visualizo cada articulação, testo uma a uma. Repito o movimento e descubro: está inteira. Pensava-a morta ou agonizante. Percorro os dedos por toda a sua extensão: sinto dor em alguns pontos e a umidade espessa de sangue. A asa direita parece não requerer maiores cuidados; sinto-a mais leve, apesar de uma pulsação atordoada.

Tenho os olhos fechados, mas sou capaz de ver (ou imaginar?) as minhas velhas asas, as saliências por onde brotam nas costas. Ainda lembro o misto de espanto e tristeza quando descobri esses pequenos brotos em mim e percebi a condenação. O corpo, sinto-o inerte, exausto. A mente, em desalinho; sentimentos confusos que são como agulhas finas e longas provocam pequenos choques que estremecem as asas. Constato o fluir incessante da vida que grita dentro de mim. Não sei bem como cheguei até aqui depois do confronto. Um repouso no meio do nada que é a noite; o vazio que suspende a saudade. Entreabro os olhos e vejo a luz que desponta no horizonte. Fere. E com a visão, tomo consciência da sensação de desconforto do rosto contra a rocha ainda fria do hálito da madrugada. Estou só e a pele escassamente coberta deixa penetrar o frio por veias e artérias.

O canto agudo de um albatroz solitário, esse irmão de alma, transpassa o coração como uma flecha; chama-me de volta ao tempo, fala-me do meu destino. Viro-me com cuidado, tentando proteger os pulsos fragilizados. Com esforço, consigo sentar e encaro a vastidão do mar que se torna céu em algum ponto além. Rastejo até a beirada e vislumbro o abismo, bem perto de mim. É preciso continuar o voo; sei que não posso descansar por muito tempo. Levanto-me, abro as asas por completo. Ensaio movimentos. Ergo a cabeça, fecho os olhos; inspiro e expiro umas quantas vezes até ter a certeza de que os pulmões ainda sabem como respirar. E num ímpeto, lanço-me ao espaço, na explosão do grito, na vertigem do novo dia, sem saber ao certo se conseguirei sustentar-me.

Texto e foto | Ana Gilbert

Do desencanto

Das coisas fascinantes do Projeto Fotografar palavras do escritor Paulo Kellerman: receber um texto para fotografar e, quando da publicação, descobrir que ele já compõe uma narrativa com outra foto e que a minha foto se alinha e complementa essa narrativa com surpreendente harmonia de elementos.

[dum lugar íntimo do desencanto]
todos os nossos passos decolam em direção ao caos
eu até parece que danço — mas condenso, só
eu até parece que passo — mas espaço, só


Texto | calí boreaz
Foto de partida: Nita Ferreira
Foto de chegada: Ana Gilbert

Dois anos de sutilezas…

Dois anos…

Obrigada a todos os que de alguma forma participaram deste percurso: aos que passaram rapidamente, aos que se demoraram, aos que conversaram, aos que me entregaram seus silêncios… porque o blog também se faz com os seus olhares…

Agora você vai ter que assumir as suas irresponsabilidades.
Eu assumi: entrei no mundo das imagens.

(Manoel de Barros, Ensaios fotográficos)

 

 

Diálogos narrativos

Colaboração com Paulo Kellerman

“E então senti uma dor tão visceral, tão imensa, tão desconcertante, que a única coisa que consegui fazer para lhe fugir foi esmurrar o meu reflexo no espelho, uma e outra vez, com ambas as mãos, com toda a força que possuía, tentando desesperadamente que a dor física suplantasse por um segundo (bastaria um segundo) a outra dor que se apoderara de mim, tentando desesperadamente que a dor física me distraísse da dor da perda e da impotência, da dor do desespero, da dor do ódio. Fui esmurrando o meu reflexo no espelho, fui esmurrando-me.”

Almas Desligadas | com Paulo Kellerman

Almas desligadas

Em novembro de 2016, Paulo Kellerman publicou o romance Serviços Mínimos de Felicidade. Em julho de 2017, Ana Gilbert recebeu-o de presente do autor: um livro impactante, denso, poético e extremamente imagético. A vontade de transformar as imagens potenciais em atuais levou-a a escolher (difícil tarefa) e fotografar 27 excertos do romance. A partir desse conjunto de fotos, novas leituras e possibilidades surgiram e Paulo Kellerman escreveu o conto Almas desligadas, que pode ser lido como um capítulo escondido do romance.

Palavras fotografadas, fotografias narradas…

Almas desligadas integra a exposição Almas Desligadas e Outras Histórias que inaugura amanhã na Galeria Indoor.

Produção | Rococó Clean

Fragmentos narrativos

Neste ensaio, elementos recortados de esculturas ganham novas perspectivas, observados por ângulos menos comuns. Desdobram-se em narrativas imaginadas, em afetos que desassossegam, instigam, surpreendem. E falam de nós.

 

Afinidades conectam os fragmentos aos autorretratos, fragmentos de um corpo narrado; estabelecem um diálogo de afetos que se desenrola diante do observador, no próprio observador.

Fragmentos narrativos e Desejo de Presença (autorretratos) são dois ensaios da Exposição Almas Desligadas e Outras Histórias, que conta, ainda, com o material produzido em parceria com o escritor Paulo Kellerman.

Inauguração: 12 de abril de 2019

Galeria Indoor | Produção: Rococó Clean

Desejo de presença

Na série Desejo de Presença, Ana Gilbert trabalha o autorretrato como suporte de expressão artística e tem como objetivo experimentar o corpo como ficção na sua relação com o mundo. A fluidez dos contornos, a reverberação desses contornos no espaço e a ênfase do corpo como ‘presença’ que interpela e afeta são características marcantes deste trabalho da artista.

Os autorretratos são parte da exposição Almas Desligadas e Outras Histórias, que inaugura dia 12 de abril na Galeria Indoor a partir das 19h. Todas as obras estarão à venda e a galeria ficará de portas abertas também no dia 13 de abril, das 14:30 às 20h.

Produção | Rococó Clean

Almas Desligadas e Outras Histórias | Exposição |

Na exposição Almas Desligadas e Outras Histórias, Ana Gilbert apresenta três fragmentos de seu trabalho que dialogam entre si de forma natural. São autorretratos, recortes de esculturas em mármore e uma série de fotos de excertos do livro Serviços Mínimos de Felicidade, escrito pelo autor português Paulo Kellerman, numa bonita parceria entre fotografia e literatura.

Todas as obras estarão à venda na Galeria Indoor a partir da noite de abertura, no dia 12 de abril.

Galeria Indoor | Produção: Rococó Clean

Femininos pessoais | Autorretrato

Exposição Femininos pessoais | Autorretrato

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Exposição Femininos pessoais | Autorretrato

Exposição coletiva FEMININOS PESSOAIS | AUTORRETRATO
24 fotógrafas que utilizam o autorretrato como suporte de expressão.

Centro Cultural Justiça Federal | Rio de Janeiro
Abertura dia 19 de março de 2019, às 19 horas
Visitação 20 de março a 28 de abril de 2019 | terça a domingo, das 12 às 19 horas | Galerias do 2º andar

Curadoria Rococó Clean

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Nasci e moro no Rio de Janeiro, Brasil. Em paralelo às minhas atividades como psicóloga clínica e pesquisadora, desenvolvo trabalho autoral em fotografia. O gosto por essa forma de expressão artística surgiu a partir de estudos sobre o olhar, ligados à pesquisa acadêmica, como forma de testar novas perspectivas e de desafiar o risco sempre presente de cristalização e declínio da criatividade daí decorrente.

O interesse por imagens, palavras e imaginação, ferramentas do meu ofício, levou-me a trabalhar com o entrelaçamento entre fotografia e literatura. Corpo, dança (movimento) e fragmentos são temas que me são caros e neles me aprofundo em busca de desdobramentos narrativos.

As fotografias que fazem parte desta exposição integram ensaios de autorretratos. A escolha desse suporte de expressão tem como objetivo experimentar o corpo como ficção na sua relação com o mundo: a fluidez dos contornos do eu, a reverberação desses contornos no espaço, a possibilidade de contato com o outro. Corpo como ‘presença’ capaz de impactar outros corpos e os sentidos; corpo ficcionado que interpela e afeta.

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Fotografar palavras #1661

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“Querido Ausente, espero que te encontres bem. Hoje fui mais cedo para o ensaio, o que me impossibilitou de ver o nosso homem jovem a olhar, furtivamente, o rio. Em contrapartida, estive muito tempo na rua. Sempre gostei de ruas, e não são raras as vezes, que sinto serem elas, as ruas, a observarem-me, e não o contrário. As ruas são uma espécie de entidade que pertence ao ar livre. Nelas, ouve-se de tudo. Listas de compras de supermercado, o preço de pneus, considerações futebolísticas, doenças, para além dos habituais “é a vida!”, “são todos uns ladrões” ou ” amanhã vai chover “. No regresso a casa, ouvi um homem dizer a outro:” São sempre os portugueses que lixam os portugueses. Mais ninguém. “Há coisas curiosas, como, por exemplo, o poder que algumas palavras têm de me transportar para outro lugar, sem qualquer autorização. O comentário sentencioso daquele português levou-me para Kafka. Para a sua história O Médico Rural. E perguntei -me quais são as regras gramaticais – caso existam – que explicam que um ser universal deverá ser como o médico rural que sai, no Inverno, da sua casa, para atender doentes que não querem ser curados mas, unicamente, serem salvos. O médico daquela história é dilacerado pelos camponeses. Não sei como as ruas fazem, querido Ausente, se calhar tapam os ouvidos e os olhos. Ou então, riem-se. Ou talvez se alimentem dos beijos dos outros. Minhas queridas ruas que tanto custaram a conquistar. 
Beijos da tua rapariga simples”
 
Projeto | Paulo Kellerman
Texto: Susana Sá
Fotos: Ana Gilbert